sábado, 8 de março de 2025

Prefeitura de SP, aplicativos e motociclistas

Um problemão para todos.


Por: Nenad Djordjevic 


Não é fácil escrever sobre um tema com pontos de vista tão distintos entre si. 


Resolvi dividir o problema acima nos seus  principais aspectos e refletir sobre cada um, individualmente e em grupo, para buscar um consenso concilioratório, que talvez seja difícil obter em uma questão antagônica como essa. São diferentes os interesses que movem todos os involvidos, e eu, não sou diferente. Tenho lado. Sempre defendi o motociclismo, em todas as suas vertentes. 


Vou começar pelos aspectos técnicos da pilotagem com garupa:

Aqui pode ser visto como tratei o assunto no passado, portanto não serei repetitivo. 

No entanto, cabe uma atualização relevante à essa dinâmica - quando os indivíduos não se conhecem. 


As motos - como projeto - são feitas para transporte individual. Devido às suas características e versatilidade, certos modelos  permitem que um passageiro seja transportado com segurança, desde que as regras que rejem essa condição sejam respeitadas. 

A primeira - e a mais importante, trata da relação de conhecimento que deve existir entre piloto e garupa. Ela é fundamental para a segurança, pois exige que ambos trabalhem como um conjunto único. Ao centralizar as massas, gerenciam melhor as forças atuantes, que acabam por proporcionar melhor equilíbrio da moto em qualquer situação. 

Para tanto, é preciso que o (a) garupa também tenha algum conhecimento sobre o que acontece em cima de uma moto, para saber o que fazer - ou não fazer - em condições que podem ser mais críticas para ambos. 

O melhor equilíbrio do conjunto piloto/garupa acontece quando a metade inferior do corpo (quadril, coxas, pernas e pés) está firmemente ligada à moto, permitindo assim que a metade superior - tórax e cabeça - estejam livres para harmonizar as diferentes forças, dando liberdade de movimento para braços e mãos. 

Nessa situação, ambos devem ter as coxas levemente comprimidas, o piloto na estrura da moto, e garupa, contra o quadril do piloto. O contato corporal deve existir, mas sem ser incômodo para o piloto. Serve para que ele(a) possa ajustar a própria postura e adequar sua pilotagem. 

Pará quem está atrás, é a melhor forma de se manter estável, principalmente em acelerações e frenagens, além de usar as mãos para se segurar, é claro. 


Muito bem. 

Ninguém dá área técnica do motociclismo disputaria esses conceitos, ou os que apresentei há 17 anos, porque os mesmos, são conhecidos em todo o mundo motociclistico, há decadas. 


Esse conjunto de regras é o que deveria ser praticado, em um mundo ideal. 


Só que não vivemos em um mundo perfeito e é preciso reconhecer as diferentes necessidades que as pessoas têm, desse veículo tão versátil. Mais do que isso, é preciso reconhecer as necessidades operacionais de cada localidade. Pilotar em São Paulo não é o  mesmo que pilotar em Tonantins/AM, aonde mais de 90% dos veículos são motos. Apenas como exemplo. 


São Paulo, é no mínimo, desafiadora para o motociclista. A cidade evoluiu sem dar muita atenção às nossas necessidades operacionais, refletindo o descaso das autoridades. Mas, tratarei disso logo mais. 


Para você que deseja trabalhar nessa atividade:

Ando de moto em São Paulo há mais de 40 anos. Por muito tempo, levei minha esposa na garupa para o trabalho, todos os dias. Preciso falar dos sustos ou "quases"? Você sabe. Vive isso todos os dias. 

Vive o descaso que uma grande parte de motoristas têm com você, quando estão dirigindo e usando o celular, quando estão desatentos - seja por qual razão for, ou simplesmente pensam que tem mais direitos que você. Sei bem como é ser desrespeitado todos os dias e de todas as formas no trânsito. Tira qualquer um do sério. 

Ainda assim, é preciso ter calma e paciência, bem como reconhecer que temos a nossa parcela de culpa em interações desastrosas. Somos nós que controlamos as situações - na maior parte do tempo. Um motorista desatento pode ser um problema, mas somos nós que decidimos quando, aonde e como, vamos lidar com a situação. Isso acontece naturalmente, porque somos os agentes mais rápidos no trânsito, e consequentemente, com o maior poder de decisão. Dessa forma, carregamos também a maior responsabilidade. Se der alguma porcaria, pode ter certeza que  você têm alguma culpa. Preparo e antecipação são essenciais. 


Você e eu sabemos que uma boa parte dos "motokas" abusa do privilégio que tem. Estatísticas não mentem - são os números de acidentados que lotam os hospitais, tirando atendimento de pessoas  que realmente precisam - e não têm. Tudo isso, porque uma parcela de nós, resolveu se achar o máximo em duas rodas. Percebe como isso afeta à todos? 

Se você não faz - e tampouco quer fazer -   parte deste problema, seja parte da solução. 

Ofereça respeito e também será respeitado. Se não mudar sua atitude, não espere que outros tenham atitude diferente. 


Andar com garupa não é tão difícil, mas colocar em risco uma outra vida? Ainda mais - uma, que além de não poder fazer nada naquela posição, pode atrapalhar tudo? Pense um pouco sobre essa responsabilidade. 


Quer saber? Peça para um amigo motociclista (amigo mesmo), pra te levar na garupa em um trajeto de meia hora. Sinta todos os desconfortos físicos e, principalmente, o quanto gostaria de ter o controle daquela situação. Se fizer -  ou já fez, essa experiência, saberá quais - e quantas - são as preocupações de quem está na garupa. 


Para àqueles que desejam usar, ou usam esse tipo de transporte:

Como garupa, já notou que não é tão simples quanto querem que acredite. Se quer manter um nível minimamente razoável de segurança, se prepare para alguns gastos. 

O capacete deve ser seu - porque para cumprir a função de proteger a cabeça, deve estar em conformidade com o tamanho que melhor se fixe a ela. Já pensou ter que usar um capacete usado por nem sei quantas pessoas? Com touca ou não, é anti-higiênico, além de perigoso, se o tamanho não lhe for adequado. Repito aqui: isso é o correto, mesmo sabendo que vivemos na terra do "jeitinho". Aliás, é por isso que estamos aonde estamos - não cabe improviso quando a vida humana está em jogo. 


Preocupe-se em adquirir um casaco de uso motociclistico, bem como luvas e calçados apropriados. Shorts, camisetas, saias, chinelos, saltos, não lhe protegem nada em cima de uma moto. 

Quando em movimento, procure manter-se firme na moto, mas mantendo ainda, certa flexibilidade no tronco, para poder acompanhar os movimentos feitos pelo piloto. Evite movimentos bruscos que terão de ser, de alguma forma, compensados na pilotagem. 

Lembre-se que é a sua vida, literalmente, que está em jogo. Considere perguntar àqueles que realmente gostem de você, o que acham de você usar esse tipo de transporte. 


Agora, os abacaxis. 

A vida está difícil para "quase" todo mundo. Quem tem que "ralar" o dia todo no trânsito paulista sabe como é estressante e doloroso voltar para casa com uma ninharia para sustentar sua família. 


Muitos são forçados à esse sub-emprego por necessidade. Alguém, em sã consciência, correria o risco de ter um acidente que lhe incapacitaria - temporária ou permanentemente - se tivesse outra opção? E perder a vida, então? 


O que não consigo compreender é como empresas que:

- aproximam desconhecidos; cobram por esse serviço; não arcam com todos os custos; - podem achar ainda que não tem maiores responsabilidades com a operação que promovem. 

Motos precisam de manutenção periódica, pneus, óleo e tantos outros itens para mitigar os riscos inerentes. Quem deve pagar? O pobre do motociclista ou as empresas estrangeiras bilionárias que só exploram essa atividade? 


Essas empresas, em minha opinião, deveriam arcar com todos os custos operacionais, uma vez que o risco é todo do piloto, e neste caso, de quem é transportado. Das empresas? Risco zero. 

O seguro que oferecem é irrisório diante da realidade de não se poder mais trabalhar ou deixar uma família desamparada. 

O certo seria que também arcassem com nosso sistema de saúde, até o montante que impacta a boa prestação do serviço, uma vez que são, sim, corresponsáveis. Falta de dinheiro, sabemos que não é. 


Do outro lado, temos a prefeitura, que pouco fez pelo motociclismo nos últimos 40 anos. Entra governo, sai governo, e somos sempre, de alguma forma, negligenciados. Mentira? 


Só um exemplo: Sabe a faixa azul? Aquela que hoje está sendo comemorada e presente nas campanhas políticas? Pois é. 

Aquele posicionamento entre as faixas um e dois, vem sendo praticado pelos motociclistas no corredor desde sempre. 


Profissionais alertam para a necessidade de demarcação da via há pelo menos quinze anos. Tratei primeiramente o assunto em 2009, e quatro anos depois reeditei a matéria - ambas as vezes publicadas através da revista Moto Adventure - com tiragem na época, de aproximadamente 40 mil exemplares/Brasil. Veja aqui e aqui.

Mais de quinze anos se passaram. Enquanto isso, padeciamos das experiências mal planejadas e mal sucedidas da prefeitura - e seus penduricalhos, criticadas publicamente pela imprensa especializada por sua ineficácia e, principalmente, custo em vidas - que a prefeitura têm em sua conta. 


Quando o atual prefeito usa o termo "carnificina" para definir o que seria a liberação de moto-taxi na cidade, denigre ainda mais a atividade motociclistica, já marginalizada. 

Mas, está correto na intenção. 

Esse tipo de serviço só é viável em curtas distâncias, principalmente para se ligar ao sofrível transporte público. Atravessar a cidade, que já tem um trânsito caótico, com garupa desconhecida? Realmente, não dá. 


Mas, a prefeitura poderia estudar outras opções para utilizar a moto como elo de ligação ao transporte público. 

Poderia também usar estacionamentos não utilizados em dado momento, para oferecer um espaço para manobras que visem o aperfeiçoamento da pilotagem. 

Poderia, ainda, promover eventos entre as diversas forças policiais e emergênciais que utilizam motos, e as comunidades às quais servem. Ensinando e aprendendo - colaborando uns com os outros. 

Tenho certeza que a lista de opções é grande. Infelizmente, o histórico apenas reativo - e tardio - das autoridades competentes, não traz um bom prognóstico. 

Aqueles que deveriam agir proativamente, só fazem algo, quando são provocados. 

Quem tem que agir assim é o judiciário - não o executivo. 

11% de crescimento da indústria motociclistica ano passado - expectativa de 7% para esse ano (Brasil), e aonde está o planejamento? 


Apenas espero que uma nova mentalidade - de todos os envolvidos - possa de fato trazer soluções sensatas para esse e outros tantos problemas que o motociclista vive nessa cidade.